Roda de Leitura de Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe, na Gerúndio Edições

Olá!
Decidi postar esta versão online do boletim que será distribuído (se o Senhor assim o permitir, é claro) amanhã em nossa primera reunião da Roda de Leitura de Junho, dedicada a Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe.
Um abraço!


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http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1994/oe.html – Acessado em 06.06.2011 e traduzido por Lucia Sasaki

Kenzaburo Oe
Nascido em 31 de janeiro de 1935, em Uchiko, Japão
Local de residência na época da entrega do prêmio: Japão
Motivo da premiação: "Aquele que com força poética cria um mundo imaginário, onde vida e mito condensam-se numa imagem desconcertante da situação humana atual.”
Idioma: Japonês

Obras escritas:
1957 – The catch
1957 – Lavish are the Dead
1958 - Bud-nipping, lamb shooting
1961 – The youth who came late
1964 – Uma questão pessoal
1965 – Hiroshima notes
1967 - O grito silencioso
1969 ou 1977 – Teach us to outgrow our Madness
1973 – My deluged soul
1983 – Jovens de um novo tempo, despertai!
1984 -
1986 – M/T and the wonders of the forest
1987 – Letters to my sweet bygone years
1989 – An echo of heaven
1990 – The tower of treatment / A quiet life
1991 – The tower of treatment and the planet
1993 – Until the saviour gets socked
1994 - Vascillating
1995 – On the great day
1996 – A healing family
1999 – Somersault
2000 – The changeling
2002 – The infant of a melancholic face
2003 – The children of 200 years
2005 – Farewell, my books!
2007 – The beautiful Annabel Lee was chilled and killed
2009 – Death by water


Obs. As obras foram escritas originalmente em japonês e muitas delas foram traduzidas para o inglês.  Como retirei esta lista de obras de websites em inglês, mantive-a na lingua original, estão em português publicações brasileiras.

Biografia
Kenzaburo Oe nasceu em 1935, numa cidade margeada pelas florestas de Shikoku, uma das quatro ilhas principais do Japão. Sua família viveu na tradição da vila por vários séculos e ninguém do clã Oe nunca deixara o vilarejo no vale . Mesmo depois que o Japão embarcou na modernização logo depois da Restauração Meiji, e tornou-se costumeiro para os jovens nas províncias abandonarem seus locais nativos por Toquio ou outras grandes cidades, a família Oe manteve-se em Ose-mura. Mapas não mais mostram o vilarejo pelo nome porque este foi anexado por outra cidade vizinha. As mulheres do clã Oe logo assumiram o papel de contadoras de histórias e relataram os eventos históricos da região, incluindo duas rebeliões que ocorreram lá antes e depois da Restauração Meiji. Elas também falam de eventos mais próximos da natureza legendária do que da História. Estas histórias, de uma cosmologia única e de uma condição humana local, que Oe ouvira falar desde sua infância, deixaram-no com uma marca indelével.
A Segunda Guerra mundial começou quando Oe tinha 6 anos de idade. Educação militarista extendeu-se por cada canto do país, o Imperador como monarca e divindade reinando na política e na cultura. O jovem Oe, assim, experimentou o mito e história do país assim como os da tradição do vilarejo e essas duas experiências frequentemente eram conflitantes. A avó de Oe era uma contadora de histórias crítica que defendia a cultura do vilarejo, narrava-lhe humoristicamente, mas sempre histórias desafiantes e antinacionalistas. Depois da morte de seu pai durante a guerra, sua mãe tornou-se sua educadora. Os livros que ela lhe comprava – As aventuras de Huckleberry Finn e As estranhas aventuras de Nils Holgersson, deixaram-no com uma impressão que ele disse que levará para o túmulo.
A derrota do Japão no ano de 1945 trouxe uma enorme mudança, até mesmo no longínquo vilarejo na floresta. Nas escolas, princípios democráticos eram ensinados às crianças, substituindo os princípios do sistema absolutista imperial, porque a nação estava debaixo da administração de forças americanas e dos países aliados. O jovem Oe adotou a democracia de coração. Tão forte era seu desejo pela democracia que ele decidiu ir para Tóquio, deixar a aldeia de seus antepassados, a vida que eles viveram e preservaram, na crença de que a cidade oferecia-lhe uma oportunidade de bater a porta da democracia, a porta que o levaria a um futuro de liberdade em caminhos que se estenderiam para o mundo. Não fosse por essa drástica mudança que a nação sofreu nesse tempo, Oe, cujo amor às árvores é uma de suas qualidades, teria permanecido em sua aldeia assim como seus antepassados, e cuidaria da floresta como um de seus guardiões.

Aos 18 anos, Oe fez sua primeira longa viagem de trem para Tóquio e no ano segunte matriculou-se no Departamento de Literatura Francesa na Universidade de Tóquio onde ele recebeu instrução sob a tutelagem do Professor Kazuo Watanabe, um especialista em François Rabelais. O sistema de imagem de realismo grotesco de Rabelais, usando a terminologia de Mikhail Bakhtin, proveu-lhe uma metodologia para repensar os mitos e a história de seu vilarejo nativo no vale.

Os pensamentos de Watanabe a respeito de humanismo, que ele alcançou em seus estudos a respeito do Renascimento Francês, ajudaram a formar a visão de sociedade e a condição humana de Oe. Um ávido leitor de literatura francesa e norte-americana contemporâneas, Oe viu a condição social da metrópole sob a luz das obras que lia. Ainda, ele também se esforçava para reorganizar, sob a luz de Rabelais e do humanismo, seus pensamentos a respeito do que as mulheres do vilarejo lhe legaram, aquelas histórias que constituíam suas origens. Neste sentido, ele estava vivendo novamente outra dualidade.

Oe começou a escrever em 1957, enquanto ainda era um estudante de Literatura francesa na Universidade. Suas obras de 1957 até 1958 – do conto The catch, com o qual ganhou o prêmio Akutagawa até seu primeiro romance, Bud-nipping, lamb shooting (1958), mostram a tragédia da guerra destruindo a idílica vida de um jovem rural. Em Lavish are the dead (1957), um conto e em The youth who came late (1961), um romance, Oe retratou a vida estudantil em Tóquio, a cidade onde as escuras sombras da ocupação norte-americana ainda mantinham-se. É visível nessas obras a forte influência de Jean Paul Sartre e outros escritores frances contemporâneos.

Crise atinge a vida e a literatura de Oe com o nascimento de seu primeiro filho, Hikari, que nasceu com uma deformidade craniana que o tornou mentalmente retardado. Traumática como foi a experiência para Oe, a crise deu-lhe uma oportunidade de mudança tanto em sua vida como em sua literatura. Superando a agonia e determinado a coexistir com a criança, Oe escreveu Uma questão pessoal (1964), seu desabafo em aceitar a criança deficiente mental em sua vida e como ele chegou a esta decisão de viver com ele. Através de um meio catalítico de humanismo, ele juntou seu próprio destino de aceitar a criança deficiente em sua família com aquele que devia aceitar a sociedade contemporânea e escreveu Notas de Hiroshima (1965), um longo ensaio em que descreve as realidades e pensamentos de vítimas da bomba atômica.

Depois de O grito silencioso, duas linhas de pensamento, que às vezes fluem como uma, são aparentes e consistentes no mundo literário de Oe. Começando com Uma questão pessoal há um grupo de obras que mostram sua vida de coexistência com seu filho deficiente mental, Hikari. Teach us to outgrow our Madness (1969), uma obra em dois volumes, retrata dolorosamente tantos seus desafios quanto seus erros que ele experimenta em sua vida com seu filho que ainda não fala e sua busca por seu pai que desapareceu na guerra. My deluged soul (1973) mostra um pai que se relaciona com seu filho pequeno que, através de canções de pássaros selvagens começou a se comunicar com sua família e que empatiza com jovens que pertencem a um partido político beligerante e radical. Jovens de um novo tempo, despertai! (1983), uma obra em que Oe escreve a partir de imagens das Profecias de William Blake mostra seu o desenvolvimento de seu filho Hikari da infância a juventude assim coroa suas obras que ele escreveu a respeito de seu filho deficiente.
O segundo grupo são histórias em que Oe relata personagens que ele estabelece no teatro dos mitos e da história de seu nativo vilarejo na floresta, mas que interagem com a vida nas cidades atuais. Este mundo da ficção de Oe, começando com Bud-Nipping, Lamb-shooting e seguido de O grito silencioso, formou o núcleo de sua literatura. Fazendo pleno uso das novas ideias da Antropologia cultural, estas obras representam a totalidade do mundo ficcional de Oe, evidenciado em Letters to my sweet bygone years (1987), uma obra a respeito de um jovem que, bancando em sua cosmologia e visão de mundo de Dante, luta mas falha em estabelecer uma base político-cultural na floresta; Contemporary games é a história que alterna entre mito e história, que Oe apoia com os princípios matriarcais que ele tira da Antropologia cultural. Ele reescreveu esta obra em forma narrativa como M/T and the wonders of the forest (1986). Com a ajuda das metáforas poéticas de W.B. Yeats, Oe escreveu The flaming green tree, uma trilogia composta de Until the Savior gets socked (1993), Vacillating (1994) and On the great day (1995). Oe anunciou que com a finalização de sua trilogia, ele entrará em seu estágio final de estudo, em que ele tentará uma nova forma de literatura. A implicação deste projeto é que Oe julga seu esforço em apresentar sua cosmologia, história e lendas folclóricas tendo-as trazido ao fim do ciclo e que ele bem sucedido em criar, através de seu retrato daquele lugar e de sua gente, um modelo para esta era contemporânea. Isso também implica que ele considera o fato de seu filho Hikari ter se tornado um compositor, ser mais importante do que sua própria literatura a respeito dele.
O Prêmio Nobel dado a ele em 1994 encorajou-o a embarcar em sua busca de uma nova forma de literatura e uma nova vida para si mesmo.

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