As três perguntas, de Liev Tolstoy / The three questions, by Liev Tolstoy

https://kirakosyanemma.wordpress.com/2013/03/12/thoughts-on-a-story-leo-tolstoy-three-questions/ - acesso em 29.jane.2017

Olá, queridos leitores!
Compartilho com vocês mais um exercício de tradução, desta vez de um conto de Liev Tolstoy chamado As três perguntas. Descobri esta história tocante por meio de uma adaptação juvenil feita pelo autor norteamericano Jon Muth, com belíssimas aquarelas. 
Procurei pelo conto original e achei esta versão em inglês no http://www.online-literature.com/tolstoy/2736/ - Acesso em 12.jan.2017

Eis uma tradução livre, concluída hoje (28 de janeiro de 2017). Acredito que há traduções melhores, feitas por tradutores bem mais experientes, mas se eu não treinar e não expor nunca vou melhorar, certo?
Aproveitem  esta pequena gota da sabedoria de Liev Tolstoy!!

Hello dear readers!
I share with you one of my translation exercises. In your case, I bring the english version of The three questions, by Russian writer Liev Tolstoy. I discovered this tale through an juvenile adaptation from Jon Muth, who made so beautiful watercolors.
I found the english version of this tale in http://www.online-literature.com/tolstoy/2736 in Jan.12th.2017
So here is my free translation. Of course there are better translations, made for professional translators, but I think that if I won't train it and share it , I will never learn how to do it properly, right?
First my tentative translation, the English text is below.
Enjoy!

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Ocorreu a um certo rei que se ele sempre soubesse o tempo certo para começar qualquer coisa; se ele soubesse que seriam as pessoas certas para ouvir conselhos e quem seria aquelas que ele deveria evitar, e, acima de tudo, se ele sempre soubesse o que seria a coisa mais importante a fazer, ele nunca falharia em quaisquer coisas que ele pudesse empreender.
E tendo esse pensamento ocorrido, ele proclamou por todo o seu reino que ele daria uma grande recompensa a quem o ensinasse qual seria o tempo certo para toda ação, e quem seria a pessoa  mais necessária e como ele poderia saber qual seria a coisa mais importante a fazer.

E homens instruídos visitaram o Rei mas eles responderam à suas perguntas de modos diferentes:

Em relação a primeira questão, alguns disseram que para conhecer o tempo certo para agir, ele deveria montar, com antecedência, uma tabela de dias, meses e anos e deveria viver de acordo com ela. Só assim, eles disseram, tudo poderia ser feito em seu próprio tempo. Outros declararam que era impossível decidir com antecedência o tempo certo para todas as ações: mas, não se deixando levar por passatempos inúteis, uma pessoa deveria sempre estar atenta a tudo que acontece  e então poderia fazer o que era necessário. Outros disseram que por mais atento que o Rei pudesse ser ao que está acontecendo ao redor, seria impossível para um único homem decidir corretamente o tempo certo para todas as ações, mas que ele deveria ter um Conselho de homens sábios, que o ajudariam a fixar o tempo certo para todas as coisas.

Mas então outros disseram que há coisas que não podiam esperar ser expostas diante de um Conselho, mas mas que deveriam ser decididas de uma vez. Mas para decidir isso, uma pessoa deveria conhecer de antemão o que está acontecendo. Apenas magos sabem dessa forma, então, para conhecer o tempo certo para tudo, o Rei deveria consultar os magos.
Igualmente várias foram as respostas à segunda pergunta. Alguns disseram que as pessoas mais necessárias ao Rei eram seus conselheiros, outros, os sacerdotes, outros, os médicos, enquanto outros disseram que os guerreiros eram o mais necessários;
À terceira pergunta, qual é a mais importante ocupação: alguns responderam que a coisa mais importante no mundo era a ciência. Outros disseram que era a habilidade na guerra, e outros que era a devoção religiosa.
Como todas as respostas eram diferentes, o Rei não concordou com nenhuma delas e  não deu a recompensa a ningúem. Mas ainda desejoso de encontrar as respostas certas às suas perguntas, ele decidiu consultar um eremita, muito reconhecido por sua sabedoria.
O eremita vivia numa floresta que ele nunca abandonava e não recebia ninguém a não ser pessoas comuns. Então o Rei se vestiu com roupas simples e antes que alcançasse o eremita ele desmontou de seu cavalo e deixou para trás seu guarda-costas, avançando sozinho.

Quando o Rei se aproximou, o eremita estava cavando o solo em frente a sua cabana. Vendo o Rei, ele o saudou e continuou cavando. O eremita era frágil e enfraquecido, e a cada vez que ele fincava a enxada no solo e revirava a terra, ele arquejava.

O Rei se aproximou e disse: Eu vim até você, sábio eremita, para lhe pedir que responda três perguntas: Como eu aprendo a discernir o tempo certo para fazer as coisas? Quem são as pessoas das quais mais eu necessito e, por isso, eu deveria lhes prestar mais atenção do que ao restante? E que situações são as mais importantes e que necessitam da minha mais premente atenção?

O eremita ouviu o Rei, mas não respondeu nada. Ele apenas recomeçou a cavar.
-- Você está cansado -- disse o Rei -- deixe-me pegar a enxada e ajudá-lo por enquanto.
-- Obrigado! -- disse o eremita e entregando sua enxada ao Rei, sentou-se no chão.

Quando ele cavou dois canteiros, o Rei parou e repetiu suas perguntas. O eremita novamente não lhe deu nenhuma resposta, mas se levantou, esticou sua mão para a enxada e disse:
-- Agora descanse e deixe-me trabalhar um pouco.

Mas o Rei não lhe devolveu a enxada e continuou a cavar. Uma hora passou, e outra. O sol começou a se por atrás das árvores e o Rei enfim enfiou a enxada na terra e disse:
-- Eu vim a você, homem sábio, por uma resposta às minhas perguntas. Se você não pode me dar nenhuma, diga-me e eu voltarei para casa.
-- Eis alguém que chega correndo -- disse o eremita -- vamos ver quem é.

O Rei se virou e viu um homem barbado correndo da floresta. O homem pressionava suas mãos contra seu estômago e sangue fluia debaixo delas. Quando ele alcançou o Rei, ele caiu no chão gemendo baixinho. O Rei e o eremita desabotoaram sua roupa. Havia um grande ferimento em seu estõmago. O Rei o lavou o melhor que pôde e cobriu-o com seu lenço e com uma toalha que o eremita tinha. Mas o sangue não parava de fluir e o Rei removia repetidas vezes a bandagem encharcada de sangue quente e lavava e cobria a ferida.
Quando por fim o sangue estancou, o homem reviveu e pediu algo para beber. O Rei trouxe água fresca e deu a ele. Enquanto isso o sol se pôs e esfriou. Então o Rei, com a ajuda do eremita, carregou o ferido para dentro da cabana e deitou-o na cama. Deitado o homem fechou seus olhos e ficou quieto, mas o Rei estava tão cansado com sua caminhada e com o trabalho que fizera que ele se sentou encostado no chão junto a porta e também caiu no sono -- ele dormiu  profundamente durante toda a curta noite de verão. Quando ele acordou de manhã nem se lembrava de onde estava ou quem era o homem barbado deitado na cama olhando para ele intensamente com olhos brilhantes.
-- Perdoe-me -- disse o homem barbado numa voz fraca, quando ele viu que era o Rei quem estava acordado e olhando para ele.
-- Eu não te conheço e não tenho nada para perdoar você -- disse o Rei.
-- O senhor não me conhece, mas eu conheço o senhor. Eu sou o seu inimigo que jurou vingança contra o senhor, porque o senhor executou seu irmão e confiscou sua propriedade. Eu sabia que o senhor foi sozinho visitar o eremita e resolvi matá-lo na volta. Mas o dia passou e o senhor não retornou. Então eu saí da minha tocaia para encontra-lo e cruzei com seu guarda-costas e ele me reconheceu e me feriu. Eu escapei dele mas teria sangrado até morrer se o senhor não tivesse feito o curativo na minha ferida. Eu desejava matar o senhor e o senhor salvou minha vida. Agora, se eu me manter vivo, e se o senhor quiser, eu servirei o senhor como seu mais fiel servo, e ordenarei a meus filhos que façam o mesmo. Perdoe-me!
O Rei alegrou-se muito por fazer as pazes com seu inimigo tão facilmente e por te-lo ganho como amigo e ele não só o perdoou como também disse que enviaria seus servos e seu próprio médico para atendê-lo e prometeu devolver-lhe sua propriedade.

Tendo se despedido do homem ferido, o Rei foi até o portão e procurou em volta pelo eremita. Antes de ir embora ele desejava mais uma vez pedir-lhe uma resposta às suas perguntas. O eremita estava fora, de joelhos, semeando nos canteiros que foram cavados no dia anterior.

O Rei aproximou-se dele e lhe disse:
-- Pela última vez, eu suplico a você que responda às minhas perguntas, homem sábio!
-- Suas perguntas já foram respondidas! -- disse o eremita, ainda acocorado e olhando para o Rei, de pé diante dele.
-- Como respondidas? O que você quer dizer? -- perguntou o Rei.

-- Você não vê? -- respondeu o eremita -- Se você não tivesse se apiedado da minha fraqueza ontem, e não tivesse cavado esses canteiros para mim, mas fosse embora, aquele homem teria o atacado e você teria se arrependido de não ter ficado comigo. Então o tempo mais importante foi quando você estava cavando os canteiros, e eu era a pessoa mais importante, e fazer-me o bem era a coisa mais importante a fazer. Depois, quando você viu aquele homem correndo em nossa direção, o momento mais importante foi quando você cuidou dele, pois se você não tivesse feito o curativo, ele teria morrido sem fazer as pazes com você. Então ele era o homem mais importante e o que você fez por ele era a coisa mais importante a fazer. 
Lembre-se então: há apenas um momento que é importante: o agora! É o momento mais importante porque é o único em que você tem poder. A pessoa mais necessária é aquela com quem você está, pois ninguém sabe se ela terá relacionamento com mais alguém e o mais importante a fazer é fazer o bem , porque este é o único propósito pelo qual nós estamos aqui.
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It once occurred to a certain king, that if he always knew the right time to begin everything; if he knew who were the right people to listen to, and whom to avoid; and, above all, if he always knew what was the most important thing to do, he would never fail in anything he might undertake.
And this thought having occurred to him, he had it proclaimed throughout his kingdom that he would give a great reward to any one who would teach him what was the right time for every action, and who were the most necessary people, and how he might know what was the most important thing to do.
And learned men came to the King, but they all answered his questions differently.

In reply to the first question, some said that to know the right time for every action, one must draw up in advance, a table of days, months and years, and must live strictly according to it. Only thus, said they, could everything be done at its proper time.

Others declared that it was impossible to decide beforehand the right time for every action; but that, not letting oneself be absorbed in idle pastimes, one should always attend to all that was going on, and then do what was most needful. Others, again, said that however attentive the King might be to what was going on, it was impossible for one man to decide correctly the right time for every action, but that he should have a Council of wise men, who would help him to fix the proper time for everything.

But then again others said there were some things which could not wait to be laid before a Council, but about which one had at once to decide whether to undertake them or not. But in order to decide that, one must know beforehand what was going to happen. It is only
magicians who know that; and, therefore, in order to know the right time for every action, one must consult magicians.
Equally various were the answers to the second question. Some said, the people the King most needed were his councillors; others, the priests; others, the doctors; while some said the warriors were the most necessary.
To the third question, as to what was the most important occupation: some replied that the most important thing in the world was science. Others said it was skill in warfare; and others, again, that it was religious worship.
All the answers being different, the King agreed with none of them, and gave the reward to none. But still wishing to find the right answers to his questions, he decided to consult a hermit, widely renowned for his wisdom.

The hermit lived in a wood which he never quitted, and he received none but common folk. So the King put on simple clothes, and before reaching the hermit's cell dismounted from his horse, and, leaving his body-guard behind, went on alone.
When the King approached, the hermit was digging the ground in front of his hut. Seeing the King, he greeted him and went on digging.
The hermit was frail and weak, and each time he stuck his spade into the ground and turned a little earth, he breathed heavily.
The King went up to him and said: "I have come to you, wise hermit, to ask you to answer three questions: How can I learn to do the right thing at the right time? Who are the people I most need, and to whom should I, therefore, pay more attention than to the rest?
And, what affairs are the most important, and need my first attention?"
The hermit listened to the King, but answered nothing. He just spat on his hand and recommenced digging.

"You are tired," said the King, "let me take the spade and work awhile for you."
"Thanks!" said the hermit, and, giving the spade to the King, he sat down on the ground.
When he had dug two beds, the King stopped and repeated his questions. The hermit again gave no answer, but rose, stretched out his hand for the spade, and said:

"Now rest awhile-and let me work a bit."
But the King did not give him the spade, and continued to dig. One hour passed, and another. The sun began to sink behind the trees, and the King at last stuck the spade into the ground, and said:
"I came to you, wise man, for an answer to my questions. If you can give me none, tell me so, and I will return home."


"Here comes some one running," said the hermit, "let us see who it is."


The King turned round, and saw a bearded man come running out of the wood. The man held his hands pressed against his stomach, and blood was flowing from under them. When he reached the King, he fell fainting on the ground moaning feebly. The King and the hermit unfastened the man's clothing. There was a large wound in his stomach. The King washed it as best he could, and bandaged it with his handkerchief and with a towel the hermit had. But the blood would not stop flowing, and the King again and again removed the bandage soaked with warm blood, and washed and rebandaged the wound.


When at last the blood ceased flowing, the man revived and asked for something to drink. The King brought fresh water and gave it to him. Meanwhile the sun had set, and it had become cool. So the King, with the hermit's help, carried the wounded man into the hut
and laid him on the bed. Lying on the bed the man closed his eyes and was quiet; but the King was so tired with his walk and with the work he had done, that he crouched down on the threshold, and also fell asleep--so soundly that he slept all through the short summer
night. When he awoke in the morning, it was long before he could remember where he was, or who was the strange bearded man lying on the bed and gazing intently at him with shining eyes.


"Forgive me!" said the bearded man in a weak voice, when he saw that the King was awake and was looking at him.

"I do not know you, and have nothing to forgive you for," said the King.
"You do not know me, but I know you. I am that enemy of yours who swore to revenge himself on you, because you executed his brother and seized his property. I knew you had gone alone to see the hermit, and I resolved to kill you on your way back. But the day passed and you did not return. So I came out from my ambush to find you, and I came upon your bodyguard, and they recognized me, and wounded me. I escaped from them, but should have bled to death had you not dressed my wound. I wished to kill you, and you have saved my life. Now, if I live, and if you wish it, I will serve you as your most faithful slave, and will bid my sons do the same. Forgive me!"


The King was very glad to have made peace with his enemy so easily, and to have gained him for a friend, and he not only forgave him, but said he would send his servants and his own physician to attend him, and promised to restore his property.
Having taken leave of the wounded man, the King went out into the porch and looked around for the hermit. Before going away he wished once more to beg an answer to the questions he had put. The hermit was outside, on his knees, sowing seeds in the beds that had been dug the day before.

The King approached him, and said:
"For the last time, I pray you to answer my questions, wise man."
"You have already been answered!" said the hermit, still crouching on his thin legs, and looking up at the King, who stood before him.
"How answered? What do you mean?" asked the King.
"Do you not see," replied the hermit. "If you had not pitied my weakness yesterday, and had not dug those beds for me, but had gone your way, that man would have attacked you, and you would have repented of not having stayed with me. So the most important time
was when you were digging the beds; and I was the most important man; and to do me good was your most important business. Afterwards when that man ran to us, the most important time was when you were attending to him, for if you had not bound up his wounds he would have died without having made peace with you. So he was the most important man, and what you did for him was your most important business. 

Remember then: there is only one time that is important: Now! It is the most important time because it is the only time when we have any power. 

The most necessary man is he with whom you are, for no man knows whether he will ever have dealings with any one else: and the most important affair is, to do him good, because for that purpose alone was man sent into this life!"

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